A infância é um chão que pisamos a vida inteira

O texto nasceu de uma reflexão psicanalítica que tive sobre como a infância permanece em nós, nas marcas que carregamos e nos prazeres que podemos reencontrar ao longo da vida adulta.

INFÂNCIAAUTOCONHECIMENTOVIDA ADULTASUBJETIVIDADE

Pannera Catrini - Psicóloga Clínica e Psicanalista

10/23/20264 min read

Hoje, depois de uma sessão, fiquei pensando em como a infância continua encontrando maneiras de existir em nós. Durante a conversa, uma paciente me contou sobre o retorno a algumas atividades manuais de que gostava quando era criança. Enquanto a escutava, senti uma alegria difícil de explicar. Havia algo de bonito naquele reencontro, na possibilidade de revisitar um lugar conhecido e descobrir que ainda gostava de estar ali. Que aquelas atividades lhe despertavam sensações boas, faziam bem, ofereciam prazer.

Depois da sessão, continuei pensando nisso. Lembrei da frase de Lya Luft: “A infância é um chão que pisamos a vida inteira.” Talvez seja justamente isso. Seguimos caminhando, mudamos de casa, de cidade, de relações. Crescemos, amadurecemos, assumimos responsabilidades e aprendemos a lidar com as exigências da vida adulta. Os dias se enchem de compromissos, a rotina ocupa os espaços e, sem percebermos, algumas partes de nós vão ficando para trás. Não porque deixaram de fazer sentido, necessariamente, mas porque outras coisas passaram a parecer mais urgentes. E, de repente, alguma coisa nos leva de volta.

Um desenho, assistir filmes nostálgicos, desenhos animados, uma pintura, um jogo antigo, uma atividade manual, um esporte que praticávamos sem pensar muito. Algo que, por algum tempo, fez parte dos nossos dias e que agora reaparece, como se nos lembrasse de que nem tudo o que fomos ficou perdido no tempo.

Fiquei pensando em quantas vezes deixamos de fazer aquilo de que gostamos porque a vida adulta parece exigir que tudo tenha uma finalidade. Trabalhamos para produzir, estudamos para alcançar, organizamos o tempo para dar conta. Até o descanso, às vezes, precisa ser justificado. Como se fazer alguma coisa simplesmente porque nos dá prazer fosse um luxo que já não cabe na agenda. Mas há coisas que não precisam nos levar a lugar algum.

Podemos pintar sem a intenção de produzir uma obra, desenhar sem precisar ser bons nisso, jogar sem transformar a brincadeira em competição. Podemos nos dedicar a alguma atividade sem que ela precise render dinheiro, reconhecimento ou qualquer resultado que possa ser apresentado aos outros. Podemos simplesmente gostar.

E talvez exista algo especialmente bonito em descobrir, depois de tantos anos, que ainda gostamos das mesmas coisas. Que certas sensações continuam ali, disponíveis, esperando que encontremos tempo para elas. Não somos mais as crianças que fomos, mas podemos reencontrar algo daquela curiosidade, daquela disposição para experimentar, daquele prazer que não precisava de tantas explicações.

A infância, porém, também nos visita de outras maneiras. Às vezes, não retorna como lembrança agradável, mas como uma reação que não compreendemos muito bem. Uma crítica que machuca profundamente, uma ausência que provoca angústia, a necessidade de agradar a todos, o medo de decepcionar. Há quem tenha aprendido cedo a não dar trabalho, a engolir o choro, a observar o humor dos adultos antes de dizer qualquer coisa.

Anos depois, essa criança crescida talvez seja aquela que resolve tudo sozinha, que oferece ajuda antes mesmo de alguém pedir, que responde “está tudo bem” quando, por dentro, alguma coisa pede para ser escutada. Há quem se esforce demais para ser reconhecido. Quem sinta a ausência de uma mensagem como se ela dissesse algo sobre o próprio valor. Quem tenha dificuldade de pedir ajuda, de descansar ou de admitir que precisa de alguém. Nem sempre percebemos o quanto algumas dessas maneiras de existir foram construídas muito cedo.

Na infância, encontramos formas de lidar com o mundo a partir dos recursos que temos. Tentamos compreender o que acontece ao nosso redor, encontrar nosso lugar nas relações e construir maneiras de nos proteger. Fazemos o que conseguimos com o afeto que recebemos, com as ausências que experimentamos e com os sentidos que, ainda tão pequenos, atribuímos a tudo isso.

O tempo passa. Crescemos, vivemos outras experiências, conhecemos outras pessoas. Ainda assim, algumas respostas permanecem. O que um dia nos ajudou a lidar com determinadas situações pode continuar se repetindo, mesmo quando já não precisamos agir da mesma maneira. Talvez por isso a infância seja um chão tão presente, porque nem sempre reconhecemos de onde vêm nossos medos, nossas exigências e nossos modos de amar. Às vezes, o passado reaparece justamente quando acreditávamos estar apenas vivendo o presente.

Mas, depois daquela sessão, fiquei pensando que esse chão não guarda somente as dores que precisamos compreender. Também guarda os lugares em que fomos felizes, as coisas que despertavam nossa curiosidade, as atividades que nos envolviam por inteiro, os pequenos prazeres que não precisavam ser explicados. Nossa história não é feita apenas daquilo que nos feriu. Também somos feitos daquilo que nos encantou.

E se, ao longo da vida, aprendemos a reconhecer as marcas que carregamos, talvez também possamos aprender a reconhecer aquilo que nos faz bem. Não para recuperar uma infância idealizada, nem para voltar a ser quem éramos, mas para descobrir o que ainda encontra lugar em nós. Talvez valha a pena perguntar: o que você gostava de fazer quando era criança? Do que brincava? O que despertava sua curiosidade? Havia alguma atividade em que você se esquecia do tempo? E quando foi a última vez que você fez alguma dessas coisas?

Não precisamos transformar esse reencontro em uma grande descoberta. Às vezes, basta voltar a pintar, desenhar, ouvir aquela banda ou aquela música, construir alguma coisa com as mãos, dançar, jogar ou experimentar uma atividade que ficou esquecida entre as obrigações da vida adulta. Não porque isso vá resolver tudo, mas porque sentir prazer também importa. Porque a vida não precisa ser feita apenas de tarefas cumpridas, problemas elaborados e metas alcançadas.

Talvez crescer também seja isso: compreender as marcas que a infância deixou, mas não olhar para ela somente através das faltas. Reconhecer que, nesse mesmo chão em que pisamos nossas dores, também existem vestígios de alegria, curiosidade e descoberta.

Hoje, saí de uma sessão pensando nisso. Em como pode ser bonito quando alguém reencontra algo de que gostava e se permite estar ali, não por obrigação, mas porque aquilo lhe faz bem. E fiquei pensando em quantos lugares nossos ainda esperam por nós. Talvez a infância seja mesmo um chão que pisamos a vida inteira. Às vezes, ele nos devolve às dores que precisamos escutar. Em outras, nos conduz de volta a algo que nos faz sorrir.

E talvez não precisemos escolher entre revisitar aquilo que doeu e reencontrar aquilo que nos fez felizes. Há espaço para os dois. Afinal, nem tudo o que ficou na infância precisa permanecer no passado.

Psicóloga Pannera

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