O mal-estar de estar “atrasado”

Uma reflexão sobre a sensação de estar "atrasado na vida" e sobre como essa cobrança nasce mais do ideal e da comparação do que do tempo real.

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Pannera Catrini, psicóloga e psicanalista

1/20/20262 min read

Ela dizia, com um sorriso meio cansado, que estava atrasada na vida. Não atrasada tipo “perdi o ônibus”. Atrasada num sentido mais profundo, mais cruel. Um atraso que não se mede em horas, mas em comparações. Um atraso que nasce quando a gente olha para os lados e conclui, sem muita prova, que todo mundo avançou… menos a gente.

Desde cedo, parece que existe um roteiro invisível: faculdade, carreira, amor, estabilidade, sucesso antes dos 30. Quem cumpre o roteiro se sente “no tempo”. Quem não cumpre, sente culpa. Não porque esteja vivendo mal, mas porque está vivendo fora do script. E quase ninguém questiona quem escreveu esse script, a gente só tenta alcançá-lo, mesmo já exausto.

O problema é que a vida não estava parada. O trabalho seguia, o corpo envelhecia, os dias passavam. Ainda assim, ela se sentia sempre chegando depois. Essa sensação não nasce do tempo real, nasce da comparação constante. É o tempo do outro que vira régua. E nenhuma régua externa dá conta do ritmo singular de uma vida.

O passado, então, vira juiz. Pequenas escolhas antigas aparecem como sentenças: “você devia ter feito diferente”, mas essa cobrança é injusta. Porque a escolha feita lá atrás foi feita com os recursos psíquicos disponíveis naquele momento e isso muda tudo. Culpar-se é esquecer quem se era quando decidiu. Você já não é mais aquela pessoa.

Já o futuro assusta por outro motivo. Ele não empurra para frente, ele paralisa. Porque realizar algo implica perder fantasias. Enquanto algo não acontece, ele pode ser perfeito. Quando acontece, vira real e o real frustra, limita, decepciona. Por isso, muitas vezes, a sensação de “atraso” esconde um medo: o medo de escolher e fechar possibilidades.

E aqui está o ponto central: sentir-se atrasado não é estar fora do tempo, é estar preso a um ideal. Um ideal de quem deveríamos ser, de onde deveríamos estar, de como nossa vida deveria parecer. Enquanto esse ideal governa, o presente nunca basta. Sempre falta algo. Sempre chegamos tarde demais para uma vida que só existe na imaginação.

Talvez o tempo não seja uma linha reta, mas um nó. O passado puxando de um lado, o futuro do outro, e o presente tentando não se romper. Nesse nó, o sujeito não está atrasado. Ele está suspenso. Esperando autorização para viver sem precisar corresponder a uma imagem impossível de si mesmo.

No fim, o que faltava não era tempo. Era permissão. Permissão para viver no próprio ritmo. Permissão para desistir da corrida invisível. Permissão para entender que estar “no tempo certo” não é cumprir prazos, é estar inteiro onde se está. O relógio continuava marcando a hora certa. O insight foi perceber que, talvez, pela primeira vez, ela também estivesse.

por Psicóloga Pannera

© Pannera Rodrigues
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